Maio 16, 2008...5:30 pm
O CAMINHO

Hoje é um dia de morte!
Hoje o dia nasceu como se estivesse pronto para morrer. Nuvens negras de luto surgiram na aurora tomando o lugar do sol que outrora fora vida.
Talvez fosse para acordar somente quem fosse morrer. Talvez o dia fosse uma extensão dos pesadelos noturnos, daqueles pesadelos que definham qualquer traço de resistência afetiva. Não se sabe, mas talvez fosse melhor o dia não ser dia, não esse dia de morte, e fosse uma noite cujo mistério seria o elo mais forte entre a vida e o corpo. Talvez o pesadelo permanecesse e não houvesse maneira de retornar aos sonhos de menino. Talvez… Não se sabe.
A janela vê o relógio, sobre o móvel empoeirado, correr preguiçosamente pelos segundos, como se o passar do tempo estivesse intensamente encarnado nas engrenagens do universo e este, por sua vez, pouco se importasse com os conflitos entre viver e encontrar-se morto.
Ninguém pressente, mas o relógio ri. Sim, ele ri de quem acordou do sono enquanto sonhava viver. Ri do ridículo e incrédulo modo de encarar as finalidades de existir — nascer, crescer, diminuir e morrer — e de como a fé recua covardemente diante do inexplicável. Minuto após minuto uma gargalhada ecoa alertando aos menos atentos que o inexplicável se aproxima ávido por surpreender quem estiver acordado. Não se sabe, mas o inexplicável se esclarece no fim da vida para que a morte seja então caminho conhecido e agradável. O fim, ele mesmo, é uma rosa vermelho-caos de desabrochar quase hipnótico e completamente apaixonante que não pode ser colhida em homenagem alheia senão a personificação corpórea do “eu”.
A janela, que desconhece as razões e o conflito, apenas observa o quarto e a paisagem — imagens muito além do alcance dos olhos de um espectador comum, porém confortáveis constatações numa despedida promissora. Lá fora, uma sensação cinza recai no que agora é secundário. Não se sabe, esse elemento, o sol, ele propriamente revelado, traz consigo a esperança que fomenta a vida. É uma pena, porém isso jamais será sabido sem que antes aconteça o devido despertar. Não é sabido por quê. Apenas se sabe que o céu, quando tem como véu a mortalha de nuvens escuras escondendo o elemento sol, anuncia algo que seria efêmero se nesses instantes não fosse repugnante, a chuva: confusão pluviometricamente espalhada pelos canteiros de margaridas, dentes-de-leão, gerânios, jasmins e toda espécie de flores ignorantes. Descobriu-se, numa época muito remota e singular, que a chuva era arauto fiel dos infortúnios terrenos, mortais ou imortais. Desde então a chuva tornou-se mau agouro e condenação. Antes de prosseguir, é necessário que se saiba que disso também não se sabe, diga-se da confusão e das flores ignorantes, que são incógnitas de um jardim não cultivado, o coração.
Como se disse, hoje é um dia de morte. Todos ainda adormecem, exceto uma alma solitária. A mesma alma solitária que reconhece as impressões do espaço e do tempo enquanto debulha as pétalas de uma rosa vermelho-caos; que acordou para compreender e finalmente dormir profundo; dormir após compreender a verdade, o inexplicável.
E, afinal, quando a mortalha foi despida e o sol, ele propriamente revelado, viu-se liberto, a alma pôde reconhecê-lo. A luz redimiu a vida reclusa e a insignificância das flores e do corpo. A alma sentiu a impropriedade e o arrebatamento e deixou-se levar pelo caminho que lhe fora elucidado. Seguiu pela eternidade íntima das recordações até chegar num imenso jardim repleto, por todos os lados, de uma certa rosa de cor apaixonante. Deu-se num longo suspiro. Estava cansada. Recolheu-se no chão coberto de pétalas vermelhas e logo adormeceu, profundamente, ignorando o caos e a sentença.
Não se sabe, antes do adormecer definitivo o pesadelo já não mais permanece…
Hoje…
Hoje é um dia de morte.
1 Comentário
Junho 18, 2008 em 9:17 pm
Um conto? um poema? uma crítica, resenha ou crônica? um texto, morfemas, palavras, vocábulos?
Sem pontuação
(o hoje e o sempre = eternidade)
Blefando espirro entre vazios e devaneios desolado
e arrefecido pelo medo deitado ao acaso desiludido
nem atormentado mais chama fria inflamada desesperança
Solidão e desapego sentença inalterável grito inaudível
Suplantado desejo vitória morta desapego total
Tensão e ódio precariedade insolência desrespeitosa
Efemeridade é vital que pena que pena ai como é dor fugaz sem o que dizer digo:
‘Hoje é um dia de morte’ - “apenas”.
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