
No Brasil, a relação entre Arte (com inicial maiúscula por se tratar de algo maior) e mídia tem provocado no meio artístico reações inusitadas e, às vezes, extremadas. Mas, para que se tenha um melhor aproveitamento do tema, é necessário que se faça um breve relato sobre o percurso da Arte durante o último século — sem que haja qualquer pretensão de esgotar o assunto —, começando em 1922 e finalizando com o estreitamento fatídico entre ela e a mídia a partir dos anos 1950.
Ao longo do século passado, algumas tranformações e revisões proporcionaram à Arte um caráter um tanto híbrido, além de promoverem a discussão da Arte por ela mesma. Tem-se na Semana de Arte Moderna, em 1922, um exemplo patente deste tipo de manifestação. Primeiro, porque aquela Semana serviu como um divisor de águas, separando, de um lado, o pensamento que alegava um fazer artístico rígido e não-passível de auto-observação, conservador por excelência, e, de outro, a alegação de uma inexprimível e inapelável autonomia — da Arte e, por extensão, do artista —, implícita desde a concepção primária da Arte até o estabelecimento de seu produto. E segundo, porque foi após aquele evento que a comunidade artísica, por consenso ou por já não haver maneira de remar contra a maré, passou a adotar uma visão menos mítica e processual, considerando em suma uma liberdade de expressão até então reprimida que, por ora, garantia um sem número de opções e tendências a serem seguidas.
Na década de 1960, mais precisamente a segunda metade, um outro movimento se levanta. Era o Tropicalismo, que, especialmente na música, surgiu como forma de protesto contra o regime militar então instaurado. Era uma mescla de Arte com contestação política — que muitos diriam mágica, outros nem tanto — e esta mescla pouco tinha em comum com o movimento estudantil daquela época. Este procurava o confronto direto a fim de tomar o poder do Estado, aquele usava das sutilezas que somente a Arte pode tramar para pronunciar o seu descontentamento. Os efeitos decorridos do movimento tropicalista foram determinantes para que tempos mais tarde a Arte se consolidasse como um grande filão para a mídia e isto se deve em parte à ampla exposição de seus ícones, tais como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Hélio Oiticica, Glauber Rocha, entre outros.

É importante ressaltar que a mídia existe, assim como a conhecemos hoje, desde os meados dos anos 1930. Contudo, é depois da aparição da televisão — final da década de 1950 — que ela, a mídia, ganha força. Para se estabelecer ela carece de algo que lhe dê subsído e é na figura do artista que ela vai se apoiar. Ora, sabendo-se que o artista vive de sua arte a mídia passa a lhe pagar um soldo por seus préstimos, mas com o tempo os acordos, antes incodicionais, mostram-se obsoletos e pouco lucrativos para os meios midiáticos e os artistas — acrecente-se aí a Arte também — se vêem sem opção que não a de se “adequarem” à nova ordem dos acontecimentos. A mídia passa a controlar a produção artística a ser veiculada e o que não corresponde aos requisitos é preterido. Na década de 1980, a mídia tranforma a veiculação artística em negócio voltado para a grande massa e a Arte ganha um atributo pouco confortável, o adjetivo ”comercial”.

Os movimentos supramencionados conduziram a Arte a uma demarcação contraditória. Dois extremos a ladeam: a liberdade de expressão e manipulação de conceitos. Algo que confirma uma antiga regra. A dicotomização é uma premissa constante em toda a História humana e mais uma vez isto pode ser testemunhado.
Alguns se ressentem e encontram na própria Arte seu subterfúgio de manifestação contra a interferência da mídia, seja através do humor, do grito ou do silêncio. Outros quedam mais ponderados, mas de alguma maneira insatisfeitos. No entanto, a grande parte, a maior e esmagadora parte, prefere se alienar no processo dominar/deixar-se dominar.
Para o bem de todos, há, no início desse novo século (XXI), uma retomada da discussão que investiga a trajetória da Arte, mesmo dentro da própria mídia. Mas, estas vozes são ainda um sussuro apenas. Alguns intelectuais tem contribuído para enriquecer as abordagens que se tem emprezado cenário atual. E um dos argumentos mais utilizados em prol da Arte é que ela configura, talvez, o produto mais caro e mais rico da Cultura de um povo. E TeXtura não se omite. Através do Fórum, coloca-se a disposição para a arregimentação de novas idéias e para a discussão dos antigos e dos novos paradigmas. Contribua!